Teste para rascunhos do ep 2 de Lugi 2.0
olhe o que produzimos ate agora: : Lugi 2.0:
A manhã se abria agitada no coração de uma cidade vibrante. A câmera percorria um centro urbano movimentado, onde o vai e vem das pessoas ditava o ritmo das ruas. Em meio aos prédios baixos e fachadas coloridas, destacava-se uma placa verde com letras brancas, balançando suavemente com o vento: Feirra Österuaru.
Era um bairro popular e pulsante, conhecido pelo comércio forte e variado. Pequenas lojas lado a lado formavam um verdadeiro labirinto de ofertas e vozes. Havia de tudo: fruteiras lotadas de abacaxis empilhados, açougues com carnes frescas penduradas em ganchos de metal, peixarias exalando o aroma forte dos mares, barraquinhas de pastel, bancas de revistas, ambulantes com suas caixas de som vendendo de carregadores a cuecas.
No meio disso tudo, numa encruzilhada — daquelas com quatro saídas e seus respectivos semáforos, dois para os carros que vinham e iam, e outros dois cruzando a via — havia uma loja que chamava atenção. Suas paredes externas tinham tons vibrantes de laranja com detalhes em verde-claro. Bem visível em uma placa lateral e outra frontal lia-se o nome com letras brancas grandes e destacadas: LOJA DO 30.
Ao entrar, o ambiente parecia um daqueles tão familiares aos brasileiros. O chão era de cimento queimado bem polido, as prateleiras metálicas altas e estreitas se estendiam por corredores apertados. Ventiladores de teto giravam preguiçosos enquanto caixas de som tocavam sucessos de rádio populares. O cheiro era uma mistura de plástico, perfume de limpeza e leve poeira.
Nas prateleiras, uma variedade de produtos reluzia sob as luzes brancas dos refletores: pratos de vidro, copos coloridos, jarras com tampas floridas, talheres em pacotes, panos de prato com estampas de galinha, brinquedos genéricos, bugigangas eletrônicas e muito mais.
Os funcionários se destacavam pelo uniforme padronizado: calça jeans escura, camisa laranja de tecido leve com mangas verdes, e o logotipo da Loja do 30 costurado no lado esquerdo do peito, bem acima do coração. Alguns atendiam clientes curiosos; outros repunham estoques e limpavam prateleiras.
Nos fundos da loja, mais precisamente na ala das utilidades domésticas, estava Max. Ele vestia o uniforme como qualquer outro trabalhador. Seu cabelo estava um pouco mais crescido, mas ainda com aquele ar jovem. Se antes seu rosto e corpo pareciam um pouco secos, quase esgotados, agora carregava um semblante mais saudável, com feições preenchidas e pele corada — o resultado de uma vida normal, ainda que difícil.
Ele segurava um conjunto de jarras e taças de vidro embrulhadas em plástico bolha. Apoiando uma caixa no quadril, com certa prática, Max colocava os itens cuidadosamente numa prateleira já semi-abastecida. Primeiro alinhou as jarras, depois os copos. Seu olhar era atento, embora seus movimentos já fossem automáticos.
Entre uma reposição e outra, soltou um leve suspiro.
Max finalizou de colocar os últimos copos na prateleira, ajeitando-os com um leve tilintar de vidro sobre metal. Deu um passo para trás, avaliando o alinhamento, e então soltou um longo suspiro, seguido de um bocejo preguiçoso. Passou a mão pelos olhos, esfregando as pálpebras com as costas da mão como se pudesse, assim, afastar o tédio do corpo.
“Mmh... que coisa chata...”, murmurou com voz baixa, quase engolida pelo zumbido dos ventiladores de teto.
Foi então que seu olhar se distraiu e caiu sobre uma figura à frente. Poucos corredores adiante, na seção de brinquedos, estava uma meninazinha de aparência singular. Seus cabelos loiros volumosos estavam presos em dois coques no topo da cabeça, de onde desciam longos fios ondulados como cachos de algodão dourado. Seus olhos azul-turquesa se destacavam sob a iluminação fluorescente.
Usava uma camisa azul-clara de gola tradicional, com as mangas dobradas até os cotovelos. Suspensórios pretos passavam firmemente sobre os ombros e se fixavam à sua saia preta de cintura alta, curta e rodada. As meias 7/8 brancas cobriam-lhe as pernas até um pouco acima dos joelhos, completando o visual com um par de sapatilhas pretas simples.
Ela segurava uma pequena cesta de compras já com alguns itens dentro e examinava atentamente uma prateleira de materiais escolares fofos. Diante dela, estavam várias canetinhas coloridas, lápis com brilhos, e uma fileira de borrachas de banana com rostinhos desenhados. Mas justamente ali, onde estavam as borrachas com rosto, só restava uma fileira vazia. Seus olhos pareciam fixos naquele espaço, como se quisesse muito uma daquelas, mas sem coragem de perguntar por elas.
Uma seção antes da menina, na ala de utensílios de cozinha, estava um homem de aparência velha. Era careca, de estatura mediana, usava uma camiseta branca encardida e uma bermuda de moletom cinza. Segurava uma panela com uma mão e um ralador com a outra, fingindo estar interessado, embora olhasse de canto para a área dos brinquedos.
Max observou a cena por alguns segundos, então balançou a cabeça, desviou o olhar e seguiu para a parte final da loja — um pequeno corredor com três portas: à esquerda, o banheiro; ao centro, o depósito; e à direita, a sala dos funcionários e câmeras.
Ele empurrou a porta do depósito. O cheiro de papelão e poeira era familiar. Caixas empilhadas dominavam o pequeno espaço, todas com etiquetas nas laterais: “copos e jarras”, “pratos de vidro”, “plásticos”, “materiais escolares fofos”... Era essa. Max a puxou, colocou-a sobre uma pilha mais baixa e a abriu. Vasculhou com as mãos até encontrar o que queria: uma borracha de banana novinha, com olhos e um sorriso bobo. Sem pensar muito, a enfiou no bolso do uniforme.
Com isso feito, foi até a sala dos funcionários. O ambiente era simples: uma mesa circular branca no centro, quatro cadeiras de plástico, uma geladeira pequena no canto, um bebedouro e um painel de monitores de segurança presos à parede.
Max pegou um copo de plástico, encheu com água gelada e começou a beber. Enquanto isso, seus olhos passearam pelas imagens em preto e branco das câmeras. Uma mostrava a entrada da loja, outra a seção de limpeza, outra o caixa dois... até que seus olhos pararam bruscamente numa das telas.
Na imagem da seção de brinquedos, o homem careca aparecia de novo. Só que agora, ele estava perigosamente perto da menina. Muito perto. De pé atrás dela, sorria de um jeito estranho, os olhos semicerrados, as mãos quase encostando nos ombros dela.
Max congelou. A água parou de descer. Ele abaixou lentamente o copo e o amassou com força. Um jato da água restante espirrou para fora, caindo direto em seus sapatos brancos e encharcando a barra da calça jeans.
Sem dizer uma palavra, girou nos calcanhares e saiu da sala em passos firmes.
Era hora de averiguar.
A menininha continuava diante da prateleira de borrachas, segurando sua pequena cestinha com tímida firmeza. Seus olhos, tão vívidos e azul-turquesa, encaravam a fileira vazia de borrachas com rostinhos sorridentes. O silêncio à sua volta era tranquilo, até demais, como se o tempo estivesse segurando a respiração.
Então, o homem careca se aproximou por trás, silencioso como um rato atrás da presa.
“Está procurando por mais borrachinhas dessas?”, ele perguntou, com um tom meloso e arrastado, forçado, a poucos centímetros de sua nuca.
A menina virou-se de leve, com o corpo rígido e o rosto já demonstrando desconforto. Ela não respondeu.
“Eu sei onde tem mais... igualzinhas a essa aqui”, disse ele, apontando para a prateleira. “Mas não estão expostas. Só quem trabalha aqui sabe... vem comigo, vou te mostrar, não precisa ter medo…”
Ele se curvou mais, o hálito quente e rançoso roçando levemente a orelha da garota. Um arrepio percorreu seu corpo. Ela recuou meio passo.
Ele esticou a mão e tentou segurar de leve seu ombro. “Vai ser rapidinho. Se você vier comigo, vai poder escolher uma de cada cor... só você, tá? Não conta pra ninguém…”
Ela apertou a cestinha contra o peito. Seus olhos começaram a brilhar — não de felicidade, mas de medo.
“Por favor... eu não quero ir”, ela sussurrou, quase inaudível.
Mas o homem ignorou. Estava encantado com o próprio plano, sorrindo de forma doentia.
“Shhh... ninguém precisa saber. Vai ser só um segredinho entre a gente, tá bem?” Ele abaixou o rosto e passou a língua devagar pela bochecha direita da menina.
Foi nesse exato instante que uma voz cortou o ar como uma lâmina:
“Acho melhor você largar ela... ou vai tomar um pau meu.”
O homem ergueu o olhar. Max estava a poucos metros, com os punhos cerrados, os olhos estreitos, o rosto endurecido numa expressão de fúria. Não havia mais o funcionário entediado de antes. Ali estava um homem à beira da explosão.
O careca sorriu. Um riso rouco e debochado.
“Hahahah... nem pensar. É melhor você calar a boca. E não avisar ninguém. Porque se você falar...”
Ele girou o corpo com rapidez e puxou, das costas, um facão de cozinha. Um dos maiores, um dos que estavam em oferta na prateleira da seção de utensílios. O metal brilhou sob a luz da loja.
“Ela morre. Você não quer isso, né?” Ele se virou para a menina de novo e arrastou a lâmina gelada pela bochecha que havia lambido. A menina tremeu. Lágrimas silenciosas escorriam.
Max avançou um passo.
“Solta ela. Última chance.”
“Dá mais um passo e ela sangra.”
Max então, respirou fundo... e agiu.
Com um movimento rápido e inesperado, ele jogou o copo plástico amassado (que ainda estava em sua mão) direto no rosto do homem. O reflexo automático do desvio deu a abertura perfeita. Em um único salto ágil, Max alcançou a menina, puxando-a com força para trás dele, protegendo-a com o próprio corpo.
“Fica atrás de mim, pequena. Não solta minha camisa por nada.”
O careca avançou com o facão em punho, grunhindo.
Começou a luta.
O homem desferiu um corte horizontal, mas Max se abaixou, girando em torno da própria base, pegando impulso do chão e desferindo um chute na lateral do joelho do oponente, que perdeu brevemente o equilíbrio. A garota recuava junto com Max, ele mantendo sempre o corpo à frente.
Outro golpe veio, vertical agora, mirando o ombro. Max usou uma tampa de lixo de metal próximo e interceptou o golpe com um clang metálico, empurrando o inimigo de volta.
“Você tá morto! MORTO!” — gritou o careca, ensandecido.
Max deu uma risada seca.
“Você já tava morto no momento em que encostou nela.”
A briga se espalhou pelos corredores. O homem, cada vez mais furioso, destruía o que encontrava pelo caminho tentando acertar Max — que usava os obstáculos a seu favor. Um chute no carrinho de promoções fez latas voarem. Max deslizou por baixo de uma prateleira caída, puxando a garota consigo.
Estilhaços de vidro voavam — bolas de natal, copos, potes... tudo explodia em volta.
Max então correu até uma das estantes da lateral, pegou um cabo de vassoura e partiu pra cima. Desviou do corte do facão, girou o bastão de madeira e acertou o punho do homem com força, fazendo a lâmina cair.
Antes que o careca pudesse se recuperar, Max agarrou-o pela gola da camisa e o puxou com brutalidade.
“Você não encosta mais em ninguém, seu verme!”
E então, com toda a força e precisão, Max desferiu um bicuda no meio do rosto do homem, com o salto do tênis branco atingindo direto o nariz.
O impacto foi tão forte que o homem voou de costas pelos ares, como um boneco de pano, e caiu direto sobre o balcão do caixa, onde estava a recepcionista e outros clientes, que gritaram em choque.
O homem desmaiou na hora, com o nariz sangrando, parte dos dentes expostos e o facão longe, batendo no chão com estrondo metálico.
A loja estava um caos: prateleiras caídas, cacos de vidro cobrindo o chão, brinquedos e cadernos esparramados.
Max, ofegante, virou-se para a menina. Ajoelhou-se e segurou seus ombros com delicadeza.
“Tá tudo bem agora. Ele não vai mais te machucar.”
Ela tremia, mas assentiu. Max a abraçou com um cuidado fraternal e depois se levantou.
Max, ao se levantar, encarou o homem, a quem havia arremessado como boneca de pano, e falou, enquanto limpava o sangue que ficou em seus sapatos brancos:
“Se você se levantar mais uma vez, eu te mato, desgraçado.”
O silêncio da loja era quebrado apenas pelos murmúrios de espanto e o som dos estilhaços de vidro ainda se acomodando no chão. Funcionários saíam de trás dos balcões, alguns segurando o celular, outros apenas atônitos com a cena diante de si. Clientes se aproximavam, cochichando, apontando, filmando discretamente.
Max respirava fundo. A adrenalina ainda corria em suas veias. Mas então ele olhou para o lado e viu a garotinha — agora mais tranquila, ainda tremendo levemente, mas com os olhos firmes.
Ele se abaixou devagar, chegando à altura dela novamente. Passou a mão com leveza sobre a cabeça da menina, bagunçando de leve seus cabelos castanhos.
“Ei… quer saber de uma coisa?” — disse com um sorriso meio torto, enfiando a mão no bolso esquerdo da calça.
“Taram!” — falou, abrindo a mão e revelando uma borracha fofa de banana, com carinha sorridente e olhos de anime.
“Um presentinho por ter sido forte hoje.” — concluiu, esticando a borracha com a palma da mão aberta e fazendo um joinha com a direita.
A garotinha olhou surpresa para o mimo. Por um instante, os olhos se encheram de água — mas agora, de emoção. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios.
Sem dizer nada, ela deu um passo à frente, esticou os braços magrinhos e o puxou para um abraço. Seu rosto ficou escondido no peito de Max.
“Obrigada, senhor…” — sussurrou com voz baixa e sincera.
Max, um pouco pego de surpresa, fechou os braços ao redor dela com cuidado.
Foi nesse momento que se ouviu o som de passos firmes e as primeiras sirenes no estacionamento.
Dois homens de uniforme azul-marinho e coletes táticos entraram com pressa pela porta automática, já aberta com força pelos funcionários da loja.
O primeiro era baixo e musculoso, barba cerrada e olhos pequenos e atentos. Usava óculos escuros presos no colarinho da camisa e caminhava com a mão já no coldre. No crachá lia-se Sargento João Almeida.
O segundo era mais alto e magro, cabelo raspado nas laterais e um olhar ágil que varria todo o ambiente com cautela treinada. O nome no peito era Investigador Renan S. Costa.
Eles se separaram ao entrar.
João foi direto ao homem caído próximo ao balcão. Se ajoelhou ao lado, checando o pulso e observando os ferimentos. Cutucou levemente a bochecha dele com a ponta da caneta, sem muita simpatia.
“Tá vivo. Que sorte a dele.”
Renan, por outro lado, caminhou até Max e a menina. Parou a uns dois metros de distância, sem colocar a mão na arma.
“Você que... derrubou ele?” — perguntou, com a voz calma, mas firme.
Max assentiu.
“Ele ia levar essa menina. Disse que sabia onde tinham mais borrachas escondidas... começou a tocar nela. Tava armado com um facão.”
Renan estreitou os olhos. Observou o rosto da menina, que assentia devagar e abraçava a borracha de banana como um tesouro precioso.
Foi então que ele congelou por um segundo. Os olhos se arregalaram.
“Espera aí…” — ele se virou para o parceiro. “João, dá uma olhada no rosto desse desgraçado.”
João o fez.
“Caraca... é ele.”
Renan puxou o celular, desbloqueou e buscou algo na galeria. Em segundos, mostrou uma foto de ficha criminal.
“Confirmado. Marcos Delano, 42 anos. Procurado há dois anos por crimes contra menores de idade. Sumiu do radar depois de escapar da última batida. Tinha mandado de prisão em aberto... e agora, tá aí... no chão.”
João riu, incrédulo.
“Se não fosse esse cara aí…” — apontou para Max — “...esse psicopata podia ter sumido com a menina. De novo.”
Renan se virou para Max, dessa vez com um semblante mais relaxado.
“Você salvou a vida dela. E talvez de outras crianças também. Obrigado.”
Max respirou fundo.
“Eu só tava no lugar certo, na hora certa.”
João apontou o polegar para ele, sorrindo.
“Bom, você é livre pra ir. A gente vai fazer um relatório e incluir seu depoimento, mas hoje... nada de interrogatório, nem papelada pra você.”
Renan completou:
“Se quiser passar na delegacia outro dia, só pra confirmar os dados... mas agora, vá tranquilo. Você fez a coisa certa.”
Max assentiu e sorriu de lado. Seus olhos foram para a garotinha, que ainda estava próxima.
João se abaixou para falar com ela.
“E você, mocinha... o que fazia aqui sozinha? Tá tudo bem?”
A menina olhou para ele, um pouco assustada no início, mas depois falou com clareza:
“Eu… eu vim comprar material escolar. Meu pai me deu um cartão de crédito limitado... só pra usar com coisinhas da escola. Ele disse que eu já era responsável, que podia comprar sozinha...”
João ergue as sobrancelhas e se levantou, virando para Renan.
“Chloe... é seu nome, né?” — disse Renan, com um tom gentil.
Ela assentiu.
“Certo, Chloe. Você foi muito corajosa. E teve sorte de ter um herói por perto.” — falou, olhando de novo para Max.
A menina sorriu e apertou a borracha de banana contra o peito.
De repente, um grito de surpresa ecoou pelo salão. Todos se viraram rapidamente, com os olhos arregalados, para a entrada da loja.
Lá estava ele.
Um homem baixo, de barriga saliente, rosto vermelho de raiva e ódio, com bigode mal aparado e um olhar que parecia querer que tudo se transformasse em pó. Vestia uma camisa listrada com botões tortos e uma calça cáqui cheia de manchas. Era o dono da loja, o senhor Zé Mané — conhecido entre os funcionários por ser um péssimo gestor e reclamar de tudo.
Ele entrou com passos largos, olhando para o chão, que parecia um campo de batalha.
“Mas que merda é essa aqui?!” — vociferou, batendo o pé no chão com raiva.
“Minha loja... minha loja tá de cabeça pra baixo! Tudo quebrado, tudo fodido, e eu ainda tenho que ver essa porra de bagunça!”
Funcionários se encolheram, trocando olhares nervosos.
Max, já cansado da situação, cruzou os braços e soltou um suspiro.
Zé Mané se aproximou do grupo de oficiais e dos funcionários, e começou a falar alto, com aquela voz de dono que acha que pode mandar em tudo.
“Agora me digam: o que foi que aconteceu aqui, hein? Quem é o responsável por essa bagunça toda?”
O sargento João e o investigador Renan trocaram um olhar.
Um dos funcionários engoliu seco e respondeu:
“Foi um cara... ele tentou assediar uma menina, e aí deu ruim.”
Max tentou ficar em silêncio, mas o dono já estava com o dedo apontado pra ele.
“Então é você! Que foi fazer bagunça aqui? Vai me pagar tudo isso? Quem vai pagar pelo vidro quebrado, pelo balcão amassado? Eu? Quem? Você?!”
Max respirou fundo, olhou para o jarro de vidro que milagrosamente estava intacto em uma prateleira próxima — um vaso decorativo caríssimo, que custava fácil uns 70 reais.
Sem pensar duas vezes, Max pegou o jarro, levantou-o e, com toda a força, derrubou no chão.
O vidro se espatifou em mil pedaços.
Ele olhou diretamente para Zé Mané, com os olhos brilhando de irritação.
“Eu me demito, seu picareta de merda!”
O dono da loja arregalou os olhos, claramente sem saber o que dizer.
Os policiais tentaram intervir, levantando as mãos em gesto de acalmar a situação.
“Calma, senhor, podemos ajudar com um auxílio, alguma solução para o reparo...”
Mas Zé Mané não quis nem ouvir.
“Nem pensar! Eu pago nada! E vocês que ficam na minha loja fazendo merda. Saiam daqui!”
A garotinha Chloe, que até então observava tudo em silêncio, olhou para Max, seus olhos grandes brilhando de preocupação e tristeza.
Ela deu um passo para frente, mas não disse nada.
Max respirou fundo, sorriu para ela com carinho e se virou para sair.
Antes de sair, virou a cabeça e disse:
“Obrigadão, policiais. Vocês são os verdadeiros heróis aqui.”
Chloe, com os olhinhos brilhando e um sorriso tímido, puxou a mão dele delicadamente e sussurrou:
“Obrigada de novo, senhor Max.”
Ele apenas acenou, tentando manter a compostura, e caminhou em direção à saída.
Assim que Max virou as costas e começou a sair da loja, Chloe pegou a cestinha que ainda segurava — cheia dos produtos que tinha escolhido, incluindo a borracha de banana tão desejada — e saiu correndo atrás dele, com passos rápidos.
Ela olhava para trás para ver se ele continuava ali, e com cuidado, sem fazer barulho, passou pela porta, seguindo Max na calçada.
Enquanto ele andava, a menina mantinha um ritmo constante, determinada a não perder o homem que a tinha protegido daquele homem horrível.
Max empurrou a porta da loja e saiu, sentindo o ar fresco da rua bater no rosto. Antes de mais nada, ele se afastou alguns passos, arrancou o uniforme laranja e verde — camisa e calça — e jogou tudo com desprezo na lata de lixo próxima. Por baixo, vestia uma camisa branca de linho, de gola simples e botões, que balançava levemente na brisa matinal. Sua calça social marrom-escura, de corte vintage e cintura alta, já o aguardava. Mantinha os suspensórios marrons alinhados sobre a camisa e os tênis brancos.
Seguiu até a faixa de pedestres, onde o semáforo verde para carros começava a piscar. Ele parou, cruzou os braços e esperou o sinal virar vermelho, erguendo os olhos para o fluxo de veículos que diminuiu até parar.
Quando o indicador de pedestres ascendeu, anunciando “pode atravessar”, Max deu os primeiros passos. Foi então que sentiu um leve toque em sua perna e viu Chloe, ainda segurando a cestinha com seus materiais e a borracha de banana no bolso, ofegante, correndo para alcançá-lo.
Ela parou ao lado dele, ajustou a alça da cestinha no ombro e fitou o rosto dele com curiosidade e um sorriso tímido.
“Desculpe… senhor,” ela começou, desviando o olhar para os próprios pés antes de voltar a encará-lo. “Você… eu queria… qual é o seu nome? Eu não sei como te chamar.”
Max hesitou por um instante, surpreso com a espontaneidade da pergunta. Olhou para ela, suavizou a expressão e respondeu:
“Pode me chamar de Max.”
O rosto de Chloe iluminou-se.
“Max… é um nome forte. Obrigada de novo, Max.”
Ela pensou por um segundo, mordiscou o lábio e prosseguiu:
“Eu… queria recompensar meu herói de alguma forma. Posso fazer algo por você? Sei lá, te dar algo em troca…”
Max balançou a cabeça, abrindo um sorriso tímido:
“Chloe, não precisa… hoje já fiz o que devia. Só fico feliz que você esteja bem.”
Ela franziu as sobrancelhas, insistente:
“Mas… e se eu quiser agradecer de verdade?”
Max suspirou, tentando manter o tom firme, mas foi interrompido por um som baixinho que fez os olhos de ambos se arregalarem.
“GRUUUURGG…”
O estômago de Max roncou alto, ecoando no meio da rua agora deserta.
Ele gargalhou, envergonhado, levando a mão ao peito.
“Bom… acho que… talvez eu aceite um lanchinho.”
Chloe sorriu.
“Então vamos até a lanchonete ali na esquina! Prometo que pago o seu lanche, Max.”
E, com isso, ela esticou a mão para guiá-lo pela calçada enquanto o semáforo mudava novamente — dessa vez para o verde de pedestres que indicava “siga em frente”.
Juntos, atravessaram a rua, prontos para encerrar a manhã de sustos com algo bem saboroso.
A cena se abria com o som suave do trânsito ao fundo e o tilintar de talheres em pratos de isopor. Max e Chloe estavam sentados lado a lado numa mesinha quadrada de plástico vermelho, acompanhada por cadeiras vermelhas igualmente simples. A mesa exibia uma logo meio desgastada de uma marca de cerveja popular — Skol. Cada um comia sua marmitinha de comida caseira: Max devorava um frango assado com farofa, arroz e feijão preto, enquanto Chloe saboreava estrogonofe de frango com batata palha e arroz branco.
O relógio de ponteiro dentro da lanchonete, logo acima do balcão, marcava 12h20. Ao lado dele, uma televisão sintonizada no canal Globo exibia um noticiário ao vivo com manchetes sobre segurança pública.
Max olhou brevemente para a TV e depois voltou o olhar para Chloe. Entre uma garfada e outra, perguntou:
“Hum, Chloe... você disse pro policial que tinha um cartão de crédito limitado. Por acaso, seu pai é alguém influente?”
Ela parou de comer por um momento, deixou o garfo repousar sobre a borda da marmita e respondeu com um suspiro contido:
“Bom... meu pai é CEO da Impérios Phone.”
Max arqueou uma sobrancelha.
“Ah! Aquela loja de telefones, né? A do shopping, que vende celular do exterior e nacional. Vive lotada de gente.”
Chloe assentiu com um sorriso breve, mas seu olhar parecia mais distante agora.
“Mas... ele quase nunca tá em casa. Ele só manda as coisas pra mim, sabe? Tipo, esse cartão, roupas, brinquedos... Mas ele não pergunta como foi meu dia, se tô bem ou não. Só... compra. E pronto.”
Max mordeu o lábio inferior, pensativo, e falou com cuidado:
“Sinto muito. E... sua mãe?”
Chloe baixou os olhos para o prato.
“Ela morreu quando eu tinha um ano. Nem lembro do rosto dela direito... só vejo pelas fotos que a babá guarda.”
O silêncio que seguiu não foi desconfortável — era respeitoso. Max apoiou o braço na mesa e, com um tom mais leve, perguntou:
“Quantos anos você tem agora?”
“Dez.” — respondeu ela, já voltando a comer com mais calma.
“E você? Quantos anos tem, Max?”
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